Umidade nas paredes de bambu a pique

Os bambus das paredes externas do chalé, até a altura dos 50 cm, foram muito prejudicados pela umidade. Durante tres anos, a agua da chuva que respinga ao bater na calçada molhou a parte inferior da parede, umedecendo a terra e fazendo não só os pés dos bambus, mas a parte dos esteios que ficam nessa faixa se comportarem como se estivessem enterrados, o que leva fatalmente ao apodrecimento. O tamanho dessa faixa depende da altura do pé direito, da largura do beiral e da forma e tamanho do telhado. É essa a razão dos especialistas dizerem que uma casa de terra tem que ter boas botas e um bom chapéu. A parede não pode receber um pingo sequer de agua, do contrario a umidade aparece, mesmo com beirais largos e apoios de paredes altos. É dificil perceber isso. Como fizemos um revestimento rico em areia e colocamos o bambu muito unido na vertical, as manchas não apareceram, é necessario colocar a mão na parede do lado de fora, depois da chuva, para sentir a umidade. Mais dificil ainda é delimitar tamanho de beiral e apoio de parede.

Veja a foto abaixo, tirada depois da chuva. É parte da face interna de uma das fachadas do chalé, sem manchas, nem marcas de umidade, que não é transferida para o interior da construção, pela caracteristica do bambu de possuir espaços vazios em seu interior

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Veja a foto abaixo, tirada depois da chuva. É a face externa da mesma fachada. Perceba que a unica mancha de umidade mais significativa, representa a face externa do lado esquerdo da foto anterior. É importante ressaltar que as fotos foram tiradas em semana de muita chuva e pouco sol.

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Na foto abaixo, que representa parte da face interna da mesma fachada das fotos anteriores, mostra claramente a mancha de umidade. Este pedaço de parede foi feito com bambus bem separados na vertical, a pouca quantidade desses ajudou na transferencia da umidade de fora para dentro.

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Em outra construção, o apoio das paredes de bambu foi feito de tijolos maciços. Veja na foto abaixo, tirada depois da chuva, a face interna de uma das fachadas dessa casa. A marca de umidade está delimitada apenas aonde estão os tijolos, na parte esquerda, até o batente da janela e na parte direita, tres fiadas, assentadas antes do bambu.

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Isso mostra que não só as casas de terra, mas todas as casas deveriam levar em conta este problema, substituindo a maquiagem dos produtos quimicos por métodos de proteção mais adequados. Mesmo com materiais que não se deterioram com a agua, como blocos de concreto, ceramico ou tijolos maciços, a umidade pode estar presente. Na minha opinião, o que esses produtos quimicos fazem, já que não existe nenhum material 100% impermeavel, é esconder a umidade, que fica presa no interior da parede, entre os dois revestimentos.

A foto abaixo mostra a face externa da mesma fachada da foto anterior. A mancha de umidade ultrapassa a altura dos tijolos e atinge toda a "barradura", revestimento de 60cm de altura feito de terra e areia com o intenção de isolar a umidade dos bambus, o que visivelmente piorou o problema, se comparado com o revestimento rico em areia feito no chalé.

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No caso do chalé, a umidade não foi causada apenas pelos respingos da agua da chuva. Além de fazermos as paredes de pedra muito pequenas, com apenas 10cm, onde os bambus são apoiados, por falta de atenção e mau nivelamento, cometemos um grande erro fazendo a calçada e o piso acima dessa parede. Ou seja, afogamos o bambu (veja foto abaixo) formando um buraco que propiciou a acumulação da agua da chuva. O resultado foi o apodrecimento do bambu nesses pontos de "afogamento". Foi uma falha construtiva que acabou acelerando muito o processo de apodrecimento do bambu.

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O interessante é que a parede nesses pontos continua tão estavel como no começo e a aparencia externa e interna é perfeita sem amarelos, buracos, nada. O reboco esconde tudo, inclusive um dos testes é chutar a base da parede que fica inabalavel. Se não fizesse sondagens com martelo nunca perceberia.Talvez, a amarração das ripas nos bambus pregados aos esteios preserve a estabilidade. Talvez, a grande quantidade de bambu deixe a parede muito leve e facil de ser travada com as amarrações das ripas nesses pontos. Talvez, a terra mantenha a estrutura interna enquanto o reboco resista aos esforços laterais. Talvez, seja tudo isso junto. O importante é demonstrar que mesmo acontecendo o improvavel a parede continua estavel. É logico que a umidade que sobe por capilaridade nos pontos de afogamento não é saudavel, mas nos pontos aonde os bambus permaneceram acima do piso, com poucos cm acima deste, a face interna da parede é seca, sem umidade, como vai ser mostrado a seguir:

Vamos começar com a foto de uma sondagem da parede voltada para o norte. Da para perceber que as ripas na horizontal estão relativamente em bom estado, apenas a primeira +- 10cm da calçada está um pouco "colorida", mas não chega estar preta por causa da humidade. Os bambus da vertical estão mais pretos do que a ripa, inclusive com a parte inferior, até os 10cm, totalmente podre facil de quebrar com a mão. Na minha opinião, isso aconteceu devido a umidade que sobe por capilaridade dos buracos do "afogamento" e não pela umidade dos respingos da agua da chuva.

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parede externa norte, face externa apos 3 anos - ponto de afogamento

Por outro lado veja a mesma parede voltada para o norte, mas em um ponto aonde os bambus não foram afogados, e estão apenas alguns centimetros acima no nivel da calçada. Como se esperava, as ripas estão mais prejudicadas que os bambus da vertical. Sem duvida esse "pretejamento" das ripas foi devido a umidade causada pelos respingos da chuva, mas é importante dizer que nesses pontos os bambus não estão podres, continuam firmes e nada garante que eles vão apodrecer com o tempo, só futuras sondagens. As ripas aqui estão mais pretas que da foto anterior devido ao beiral menor.

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parede externa norte, face externa apos 3 anos - alguns centimetros acima do nivel da calçada

A foto abaixo mostra uma sondagem feita na face interior dessa mesma parede norte em um ponto aonde o bambu ficou acima do nivel do piso e da caçada. Perceba que os bambus não tem o menor sinal de "pretejamento", estão branquinhos, a terra está seca, a parede está em perfeito estado

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parede externa norte, face interna apos 3 anos - acima do nivel do piso e da calçada

A foto abaixo mostra a face externa de uma parede voltada para o sul . Perceba o ponto de afogamento observando a primeira ripa parcialmente enterrada abaixo do nivel da calçada. As ripas apesar de estarem pretas continuam firmes, os bambus da vertical apodreceram até os 10cm por causa do afogamento

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parede externa sul, face externa apos 3 anos - ponto de afogamento

A foto abaixo mostra a face interna dessa mesma parede voltada para o sul . As ripas apesar de estarem pretas continuam firmes, Tenho certeza que esse pretejamento foi devido a umidade que sobre por capilaridade e não pela umidade da face externa. É bom lembrar que nesse método, como já comentado, os bambus da vertical são muito unidos, o que acaba formando um espaço vazio entre as duas faces da parede, dificultando a transferencia da umidade. Isso acontece por causa da caracteristica do bambu de possuir espaços vazios em seu interior. É por essa caracteristica, que eu não abriria mão de usar bambus nas paredes externas. O bambu ajuda afastar a umidade para o interior da construção.

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parede externa sul, face interna apos 3 anos - ponto de afogamento

A foto abaixo mostra a parede voltada apara o leste. Perceba as ripas, de todas as sondagens feitas até aqui são as de melhor estado. Os bambus da vertical também apodreceram até os 10cm acima do nivel da calçada.

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parede externa leste, face externa apos 3 anos - ponto de afogamento

A foto abaixo mostra a parede do chuveiro, em perfeito estado sem podres, vale resaltar que aqui cuidamos para não afogar os bambus

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parede do chuveiro - bambus acima do nivel do piso acabado

Sem duvida a parede mais prejudicada de todas as sondagens foi a oeste mostrada na foto abaixo. Perceba o total apodrecimento do bambu, ripas e verticais, até os 30 centimetros de altura a partir da calçada. Não consegui achar uma razão para isso. Essa parede não deveria estar em condições muito piores do que as outras, foi feita com o mesmo bambu, do mesmo modo. Quem sabe uma outra sondagem nessa mesma parede esclareça o ocorrido. Me lembro de ter estocado tijolos de outra construção em frente a essa parede. Quem sabe isso não acelerou o processo de apodrecimento. Com respingos de chuva, mas sem sol, a parede permaneceu umida por periodos mais longos que as outras.

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parede externa oeste, face externa apos 3 anos - ponto de afogamento

Perceba na foto abaixo a mesma sondagem mas sem a destruição do bambu com a mão. Achei muito interessante a parede continuar estavel com todos os bambus podres até a altura de 30cm acima da calçada. Sem duvida, como já dito, são as ripas amarradas aos esteios afastadas dessa umidade que sustenta a terra da parede e a propria terra nessa faixa de umidade se mantém estruturada sobretudo com a ajuda do revestimento. A parede continua firme, aguenta empurrões, inclusive chutes na base entre as ripas, só no lugar das ripas que ela afunda com os chutes, mas sem atrapalhar a estrutura.

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parede externa oeste, face externa apos 3 anos - ponto de afogamento

Em outra construção aumentamos as paredes para 22cm acima da calçada (3 fiadas de tijolos maciços), os bambus "coloriram" nos pés com um ano e meio, chapiscamos com cimento e fizemos um reboco mais grosso de terra com areia até os 60cm. O que não foi bom, como já comentado, o revestimento rico em terra piorou o problema da umidade

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Conclusões

A parede de pau ou bambu a pique não pode receber agua e a melhor maneira de evitar isso é a execução de calhas. Apesar do preconceito de que a calha dá muita manutenção ou "enfeia" a construção, acho que é a melhor opção, melhor do que afastar o bambu, transferindo a umidade para paredes de tijolos ou aumentar o beiral, diminuindo a insolação para o interior da construção. No chalé, que possui telhado de quatro aguas, fizemos uma calha de bambu gigante, que funcionou perfeitamente. A parede fica totalmente protegida da chuva, veja a foto abaixo:

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Já em outra construção, a calha de bambu gigante não funcionou por dois motivos. Sendo o telhado de duas aguas, é impossivel colocar as peças de bambu em cascata sem haver respingo, ao contrario do telhado quatro aguas, neste tipo de cobertura a quantidade de agua recolhida é a mesma ao longo da calha, ocorrendo respingos quando esta fica afastada da telha. Ao unir o bambu no mesmo nivel surgem aguas paradas pelas imperfeições naturais do material . Neste caso foi necessario uma calha convencional. A foto abaixo mostra a calha de bambu gigante, que não funcionou, em um telhado grande de duas aguas.

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O apoio para as paredes de bambu a pique, no caso de haver calhas, não precisa ser maior que 30cm, mesmo com beiral curto. Sem calhas, como já comentado, mesmo com beiral largo, por varios motivos pode haver umidade, por isso, além de um apoio alto, mais ou menos de 60cm de altura, uma vala com escoamento preenchida de pedras, aonde caem os pingos de chuva, ajuda muito a diminuir essa faixa de umidade.

Nas fachadas aonde não ocorrem respingos, telhado de duas aguas por exemplo, e é impossivel colocar calhas, achava aconselhavel um apoio para as paredes de bambu a pique, já mencionado, de 60cm, mas hoje, acho desnecessario, manteria os 30cm. Desconfio que construções de dois andares, mesmo com calha, necessitam deste apoio maior. Não aconselhava este método construtivo para a fachada mais exposta sob telhado de uma agua, mas mudei de opinião ao observar este tipo de parede, feita no quiosque. Ela está intacta, sem nenhum problema com relação a umidade.

As marcas da umidade mostram algumas coisas. O revestimento mais rico em areia do chalé, é bem menos suscetivel a umidade do que o revestimento mais argiloso, rico em terra da casa maior. Isso mostra que externamente até os 60cm o revestimento não deve conter terra, apenas areia e cal ou, se preferirem, areia, cal e cimento, este ultimo, na minha opinião, desnessessario. Outra coisa é umidade que o tijolo traz para dentro da construção, muito maior qu parede de bambu a pique, o bambu, já insistentemente comentado, quando muito unido, forma uma barreira contra a umidade.

Na minha opinião, de todas as construções com terra, o método pau a pique feito de bambu bem unido na vertical é o mais sustentavel, barato e saudavel de todos, usa-se pouca terra obtendo um conforto termico bem melhor, devido ao isolamento natural do bambu, além de ser duravel como demostrado aqui, porque mesmo com o apodrecimento do bambu a parede se mantém estavel. Mesmo assim, nada garante que se esse método fosse feito de modo correto, protegendo o bambu da umidade, esse apodrecimento aconteceria.

Hoje, seis anos e meio depois de construir a casa principal e proteger a parede dos respingos da chuva, usando uma calha convencional, confirmo esta hipotese. Podemos observar pela foto abaixo que tanto o bambu como o esteio estão intactos. Escolhi este ponto para fazer a sondagem, pois foi o lugar mais atingido pelos respingos da chuva. Mesmo depois de fazer a calha de bambu gigante, a agua continuava a cair na parede, porque alí havia uma emenda no bambu. Por tres anos inteiros a alvenaria foi atingida neste local. A calha convencional, feita anos depois, estancou o apodrecimento.

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Como gastei exatamente a metade do valor por metro quadrado de uma construção popular da época. Hoje, seis anos e meio depois, corrigindo este valor pelo IPCA, tenho dinheiro suficiente para reconstruir todas as paredes, estrutura e telhado da casa, mas como a construção está perfeita, não ha necessidade disso. É uma belíssima resposta para os que tiveram preconceito e não acreditaram na minha iniciativa.

Não há duvida que o revestimento é outro ponto importante a ser ressaltado, ele é imprescindivel, sem ele a construção se torna insalubre, proporcionando um ambiente perfeito para o grande vilão das construções de terra, o barbeiro. Tenho certeza que o maior obstaculo desse método é o preconceito, vencendo isso, temos uma construção com todas as qualidades descritas acima e extremamente facil de ser executada por trabalhadores não qualificados, aumentando ainda mais a sustentabilidade do método.